sábado, 8 de maio de 2010



Canto dos Emigrantes

Com seus pássaros
ou a lembrança de seus pássaros,
com seus filhos
ou a lembrança de seus filhos,
com seu povo
ou a lembrança de seu povo,
todos emigram.

De uma quadra a outra
do tempo,
de uma praia a outra
do Atlântico,
de uma serra a outra
das cordilheiras,
todos emigram.

Para o corpo de Berenice
ou o coração de Wall Street,
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico,
para dentro de si
ou para todos, para sempre
todos emigram.

Alberto da Cunha Melo


terça-feira, 15 de dezembro de 2009




A noite tem olheiras

Na noite que não adormece
Alguém vasa os olhos
E corta a garganta de desespero.

Na noite que não adormece
Alguém pensa em partir
Para nunca mais voltar
Alguém volta mais triste que na partida

Na noite que não adormece
Bêbados duplicam as ruas,
Duplicam as luas,
E a única solução é a de estar bêbados.

Na noite que não adormece
Porque não deixamos,
Acontece o dia
Que nunca acorda a noite,
Porque a noite está sempre acordada,

Esperando por nós,
Homens e mulheres,
Partidos, tristes,
Alegres e desesperados.


João Bosco da Cunha Melo (Meu pai) do livro: Força Bruta







XVII


Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eue tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Forma levando qualquer coisa minha...

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela, amarelada...
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! Desta mão, avaremente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror!Voejai
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca.

Tirado do livro: Rua dos cataventos (Mário Quintana)

sábado, 10 de outubro de 2009

Inverso






Eu sou a morte que a vida esqueceu de morrer,

Muitas vezes morri e até esqueci,

Esqueci que a vida é a morte ao contrário,

Então quando morrer

Não se espantem!

Para mim, a morte chegou atrasada.

Tecendo a teia


Sou uma parte de partícula geográfica,

Tecendo a teia do universo inteiro.

Sou a gota que falta para transbordar o copo,

O sopro que resta no pulmão de quem sofre.

Sou o último tijolo,

A última sorte,

A última chance de quem ama,

A última morte.

Última morte?

Será que a morte é única?

Só sabe quem morre.

domingo, 10 de maio de 2009

quarta-feira, 29 de abril de 2009

   As vezes eu queria estancar o fluxo dos pensamentos, desligar o sol que queima em minha memória, apagar as lembranças, que me deixam o dia todo indo e vindo pra lugar nenhum. Clamo pelo sono que nunca chega na hora que eu mais preciso, a única presença é desse fantasma de sete cabeças horrendo que não me assusta mais , mas que me incomoda com sua fala estridente nos ouvidos dos meus pensamentos. Pois é , tem dias que são assim.
   Tem dias que a única saída é por pra fora o que ficou há muito tempo trancado e empoeirado, por pra fora como um vômito, uma flatulência, um escarro, uma lágrima. Mas são várias as lágrimas, lágrimas que lavam uma sujeira ancestral, de lembranças de antepassados, que foram embora deixando um rastro impregnado no sótão do meu inconsciente, como no Retrato de Dorian Gray, lá no sótão havia aquele quadro com sua imagem aterrorizante, a imagem de todas as vilanias de um ser que apresentava uma face sem nenhuma mácula perante os mortais, enquanto que ele jamais envelheceria, o retrato cumpriria esse papel "terrível" de envelhecer por ele.
    Não tenho medo da velhice, quero mais é que venha essa aliada do tempo, ela será minha amiga, minha mentora, pois de amizades sou mesmo pobre, muito pobre. É que os amigos mordem, a gente nunca sabe do que são capazes, as pessoas sofrem de uma metamorfose constante, mas voltando ao assunto, como sou uma pessoa totalmente desprovida de vaidades, a velhice realmente não me mete medo algum, o único medo que ela poderia me causar seria o de estar mais perto da morte, mas como essa também não me impressiona, que venha a morte também, pois é lá que está o alívio para todos esses tormentos existenciais, caso haja um outro lado, pois é nisso que acredito, com certeza é bem melhor que esse lado de cá, disso não tenho nenhuma dúvida, é lá que as máscaras caem, é lá que todo mundo é uma unidade realmente, pois isso de igualdade aqui na terra nunca existiu, é uma grande utopia, como o socialismo, enfim, tem dias que são assim, a gente se sente tão vazio, aí começa a pensar em um monte de coisas, do tipo: pra quê eu existo?Pra quê eu sirvo?Na verdade todo mundo serva pra a mesmíssima coisa:acumular lembranças, experiências, formular conceitos, aprender, ensinar, aprender e aprender...É isso aí!